quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Tá lido #24 - Tenda dos Milagres, Jorge Amado (mais discussão do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas)

Tenda dos Milagres
Autor: Jorge Amado
Editora: Record
Páginas: 323
Sinopse: Publicado em 1969, traduzido para dez idiomas e adaptado para o cinema e a TV, o livro Tenda dos Milagres é um grito contra o preconceito racial e religioso, um canto à miscigenação e ao sincretismo tão marcantes na obra do escritor Jorge Amado. É a história de Pedro Archanjo, um mulato de muitos amores - alguns contidos em nome da amizade -, que documentou a cultura popular e provou a ascendência negra da aristocracia baiana do início do século XX. A história de do herói pobre, boêmio e erudito, que assumiu o preço de colocar o dedo na ferida dos inimigos da mestiçagem.



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O post de hoje vai ser diferente, porque pela primeira vez deu certo pra mim participar do debate no Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas, o livro do mês de setembro é Tenda dos Milagres do Jorge Amado. 

Essa é minha segunda experiência com Jorge Amado, não sou muito conhecedora da obra, mas quando li Capitães da Areia senti muito mais empatia com os personagens do que em Tenda dos Milagres e também achei um livro mais voltado para várias questões sociais e isso é bem mais presente nesse livro que em Capitães da areia, embora esse assunto seja recorrente na obra de Jorge Amado a forma de abordagem muda muito e isso trás novas perspectivas de um mesmo assunto.

Tenda dos Milagres é muito mais que um livro sobre alguém, existe Pedro Archanjo como personagem principal e centro da narrativa, mas existe principalmente o mundo, a cultura, o povo de Archanjo, é impressionante como essas coisas se misturam e não dá pra definir onde começa a história dele sem definir um início às histórias do Candomblé, da mestiçagem e do povo da Ladeira do Tabuão.

Pedro Archanjo nasceu mestiço e pobre em uma Bahia preconceituosa, ficou sem família muito cedo na vida, mas por onde passava era querido, parece que ele tinha o dom de mudar as pessoas, ou de plantar uma semente de esperança e carinho no coração dos pobres, parece que quanto pior era sua situação, mais ele sorria.

A amizade é bastante presente na vida dele e seus amigos são importantes, Lidio Corró, Zabela  e o Barão são os meus preferidos (confesso que não gostei da Rosa de Oxalá e nem do Tadeu, pelas atitudes dele mais no fim do livro) , existem muitos personagens nesse livro, mas eles não são desenvolvidos o que torna nosso contato com eles meio raso e isso é ruim, até a metade do livro nem com Pedro eu tinha me apegado, mas quanto mais se conhece dele mais se quer saber e mais se admira. E por isso a sensação de que Pedro a pessoa é pouco explorada, enquanto a personalidade que foi exposta na mídia é muito explorada, fica a sensação que querer saber mais dos filhos, amores e sentimentos de Pedro.

Um dos pontos principais nesse livro é a valorização da cultura, folclore e dessa mistura de cores da Bahia e do Brasil, além da crítica contra a precaridade de vida nas favelas e periferias. Isso torna esse livro extremamente atual.

Acho que nem vou falar mais muita coisa, porque ir descobrindo os mistérios da Tenda, de Archanjo e do Povo do Tabuão é o mais gostoso desse livro, cada peça que se encaixa torna a história mais gostosa, as sacadas inteligentes do autor pra ligar as histórias  dos personagens e lugares também é fascinante!

SE VOCÊ AINDA NÃO LEU ESSE LIVROS E NÃO QUER SPOILLERS POR FAVOR PARE AQUI, DEPOIS DA QUEBRA DE PÁGINA EU COLOCAREI MEUS PONTOS DE VISTA SOBRE ALGUNS PONTOS IMPORTANTES DA OBRA PARA DEBATE NO FÓRUM LITERÁRIO ENTRE PONTOS E VÍRGULAS, POR ISSO EU FALO BASTANTE SOBRE O QUE ACONTECE NA HISTÓRIA E COM CERTEZA TEM SPOILLER ! :)



O que mais me chama atenção é que ele sempre se esforçou pra manter seu caráter forte, seu orgulho, o respeito por sua cor e classe, sua dignidade e seus ideais, para ele era importante defender os negros e mulatos, os pobres e a cultura africana, mas quando ele morreu isso foi tirado dele. 
Na tentativa de crescer em cima de Archanjo o jornal  criou uma comemoração do centenário dele, mas transformou a lembrança dele em uma coisa totalmente caricata, mudaram sua cor, suas crenças e sua personalidade para que ele se encaixasse no que o governo de 1968 achava aceitável, bingo! Mais uma crítica social.

Achei que a vida de Pedro foi pouco explorada, afinal o enfoque maior era nas críticas sociais, em mostrar a riqueza da miscigenação, da cultura africana na Bahia, a pobreza e tantas coisas que nos mostram como era difícil viver em uma época de pré/pós Segunda Grande Guerra e ditadura, se parar pra pensar isso é bem recente. Quem acha que o país nunca foi racista ou que as influências de uma arianismo puro nunca chegaram aqui se engana e quem acredita que o país mudou muito nesse último século se engana mais ainda.

Quer um exemplo disso? Pensa na pobreza, na dificuldade de estudar dos pobres, na falta de saúde (Archanjo acha que pobre que vai pra hospital, sai em caixão), o racismo (hoje pode ser mais velado, mas ele é bem presente) e principalmente a desvalorização da nossa cultura e importação da cultura e dos valores estrangeiros e a corrupção na polícia, no governo e na sociedade mesmo, entre o próprio povo.

Um contraponto maravilhoso que Jorge Amado faz é mostrar a forma de lidar com o racismo, as escolhas que podem ser feitas mudam o resultado, ele usa Pedro e Tadeu pra mostrar isso, enquanto Pedro escolhe não aceitar o racismo e lutar pelo seu povo e pelo que ele acredita ser o certo, como Ojubá ele é os olhos de Oxalá e morre lutando, já Tadeu escolhe seguir a sua ambição, seus sonhos e aceita o racismo da família de sua futura esposa, ao mesmo tempo que se esquece de suas origens e se torna um figurão que veio de baixo, mas que agora está no lugar certo. 

Achei um livro bem escrito, meio confuso no começo por ser cheio de regionalismos, mas maravilhoso depois que consegui estabelecer um ritmo e me acostumar com as expressões a leitura fluiu e do meio pro final foi uma delícia de ler, porque é muito mais interessante saber quem era o Pedro Archanjo do que acreditar nos jornais.

:)
Até a próxima!




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