segunda-feira, 29 de junho de 2015

{Fabi} Fórum Bastardas - Primeira parte de O segundo sexo, Simone de Beauvoir



**** POR ESSE SER UM TEXTO DESTINADO A DISCUSSÃO, PODE CONTER SPOILLERS! ****

As meninas do blog/fórum Bastardas dividiram a leitura do primeiro volume de O segundo sexo em três datas, baseadas na própria divisão do livro:

Volume 1
  • 15/06 - Discussão da primeira parte "Destino", até página 98
  • 15/07 - Discussão da segunda parte "História", até página 206
  • 15/08 - Discussão da terceira parte "Os Ritos", até página 356
(Elas usaram como base de páginas a nova edição, em volume único, lançada pela Nova Fronteira e a divisão do segundo volume vai acontecer só depois de finalizarmos o primeiro, nesse post elas explicam tudo certinho).


Terminei a parte Destinos (na minha edição vai até a parte 86), como uma sensação de incomodo, não é que não gostei, mas achei desafiador, achei que ela põe o dedo na ferida e a forma como ela aponta a situação das mulheres é incomoda. Se pararmos pra contextualizar a obra, coisa que acho sempre interessante de fazer, percebemos que muito do que ela contesta e refuta eram tidos naquele momento como certezas e como normais, hoje anos depois algumas coisas já mudaram (graças a Deus).

A primeira parte é dividida em:
  • Os destinos da biologia; 
  • O ponto de vista psicanalítico ;
  • O ponto de vista do materialismo histórico.
Vou falar um pouco de cada parte separadamente, acho que fica mais fácil de explicar.

A introdução <3
Essa parte é o que me faz querer ler o livro, nela Simone mostra porque ela quis escreves esse livro. Ela cita Dorothy Parker:
“Não posso ser justa em relação aos livros que tratam da mulher como mulher... Minha ideia é que todos, homens e mulheres, o que quer que sejamos, devemos ser considerados seres humanos.”
 Depois ela diz:


"A mulher tem ovários, um útero; eis as condições singulares que a encerram na sua subjetividade; diz-se de bom grado que ela pensa com suas glândulas. O homem esquece soberbamente que sua anatomia também comporta hormônios e testículos. Encara o corpo como uma relação direta e normal com o mundo, que acredita apreender na sua objetividade, ao passo que considera o corpo da mulher sobrecarregado por tudo o que o especifica: um obstáculo, uma prisão."
Aqui ela diz que é comum termos classes segregadas na sociedade humana, mas que essas classes renegadas se unem e causam a mudança. Que elas fazem a mudança acontecer e que a mulher não é de uma classe, nem de uma raça diferente, ela é de outro gênero, mas que as mulheres não se solidarizam umas com as outras, logo não se unem e não causam a mudança.
"Elas são mulheres em virtude de sua estrutura fisiológica; por mais longe que se remonte na história, sempre estiveram subordinadas ao homem: sua dependência não é consequência de um evento ou de uma evolução, ela não aconteceu.
[...]Vivem dispersas entre os homens, ligadas pelo habitat, pelo trabalho, pelos interesses econômicos, pela condição social a certos homens — pai ou marido — mais estreitamente do que a outras mulheres. Burguesas são solidárias dos burgueses e não das mulheres proletárias; brancas, dos homens brancos e não das mulheres negras"
 Depois ela fala um pouco sobre o papel da mulher na sociedade e como ela se comporta em relação aos homens comparando por exemplo como os negros dos EUA se comportavam em relação aos seus opressores (brancos):
"O laço que a une a seus opressores não é comparável a nenhum outro. A divisão dos sexos é, com efeito, um dado biológico, e não um momento da história humana. É no seio de um mitsein original que sua oposição se formou e ela não a destruiu. O casal é uma unidade fundamental cujas metades se acham presas indissoluvelmente uma à outra: nenhum corte por sexos é possível na sociedade. Isso é o que caracteriza fundamentalmente a mulher: ela é o Outro dentro de uma totalidade cujos dois termos são necessários um ao outro."
"É que, na relação do senhor com o escravo, o primeiro não expõe a necessidade que tem do outro; ele detém o poder de satisfazer essa necessidade e não a mediatiza; ao contrário, o escravo, na dependência, esperança ou medo, interioriza a necessidade que tem do senhor; a urgência da necessidade, ainda que igual em ambos, sempre favorece o opressor contra o oprimido: é o que explica que a libertação da classe proletária, por exemplo, tenha sido tão lenta. Ora, a mulher sempre foi, senão a escrava do homem, ao menos sua vassala; os dois sexos nunca partilharam o mundo em igualdade de condições; e ainda hoje, embora sua condição esteja evoluindo, a mulher arca com um pesado handicap."
E uma das minha partes preferidas:
"Mas uma questão imediatamente se apresenta: como tudo isso começou? Compreende-se que a dualidade dos sexos, como toda dualidade, tenha sido traduzida por um conflito. Compreende-se que, se um dos dois conseguisse impor sua superioridade, esta deveria estabelecer-se como absoluta. Resta explicar por que o homem venceu desde o início. Parece que as mulheres poderiam ter sido vitoriosas. Ou a luta poderia nunca ter tido solução. Por que este mundo sempre pertenceu aos homens e só hoje as coisas começam a mudar? Será um bem essa mudança? Trará ou não uma partilha igual do mundo entre homens e mulheres? "

 Nesse momento fiquei me questionando, como as mulheres em si se posicionaram através do tempo, como eu me posiciono e qual a minha tendencia, acho que é um dos pontos mais relevantes desse livro, como boa filosofa existencialista ela defende que o ser é individual e que seu gênero, raça, credo é secundário. (Pelo menos foi o que eu entendi).

Segundo a Wikipédia filósofos existencialistas: "partilhavam a crença que o pensamento filosófico começa com o sujeito humano, não meramente o sujeito pensante, mas as suas ações, sentimentos e a vivência de um ser humano individual. No existencialismo, o ponto de partida do indivíduo é caracterizado pelo que se tem designado por "atitude existencial", ou uma sensação de desorientação e confusão face a um mundo aparentemente sem sentido e absurdo."


Os destinos da biologia
Nessa parte do livro ela discute os pontos de vista fisiológicos e biológicos, nessa parte ela vai mostrando como o corpo feminino é diferente do masculino, ela aponta as definições e os papéis do homem e da mulher na filosofia (que é a base de toda a ciência e pensamento científico) e posteriormente da ciência, levando em conta que o livro foi escrito em 1949 e de lá pra cá muita coisa mudou, a ciência evoluiu e muita coisa que era tida como certa, hoje não é exemplos disso:

"Machos e fêmeas são dois tipos de indivíduos que, no interior de uma espécie, se diferenciam em vista da reprodução: só podemos defini-los correlativamente. Mas é preciso observar que o próprio sentido do seccionamento das espécies em dois sexos não é muito claro.

[...]

Conhece-se o mito platônico: no princípio, havia homens, mulheres e andróginos; cada indivíduo possuía duas faces, quatro braços, quatro pernas e dois corpos, colados um ao outro; foram um dia “partidos em dois, da maneira como se partem os ovos”, e desde então cada metade procura reunir-se à sua metade complementar; os deuses decidiram, posteriormente, que pela junção das duas metades dessemelhantes novos seres humanos seriam criados. "
Depois ela cita que no fim a fecundação é responsabilidade dos dois:
"O que cumpre notar é que nenhum dos gametas tem privilégio nesse encontro. Ambos sacrificam sua individualidade, absorvendo o ovo a totalidade de sua substância.  Há, portanto, dois preconceitos muito comuns que — pelo menos nesse nível biológico fundamental — se evidenciam falsos: o primeiro é o da passividade da fêmea; a faísca viva não se acha encerrada em nenhum dos dois gametas: desprende-se do encontro deles. O núcleo do óvulo é um princípio vital exatamente simétrico ao do espermatozoide.[...]  Na realidade, o embrião perpetua o germe do pai tanto quanto o da mãe e os retransmite juntos aos descendentes, ora sob a forma masculina, ora sob a feminina. É, por assim dizer, um germe andrógino que, de geração em geração, sobrevive aos avatares individuais do soma."

No fim também ela aponta que na época das cavernas talvez o homem levasse realmente vantagem sobre as mulheres, afinal era preciso de muito mais força bruta, hoje com o auxilio de máquinas o corpo se tornou secundário e a capacidade intelectual é muito mais importante, logo homens e mulheres possuem igualdade na capacidade de exercer funções semelhantes.
Ia esquecendo de dizer, Simone de Beauvoir fala de menstruação como ninguém. ;)


O ponto de vista psicanalítico
Aqui nem vou citar nada, pois fiquei com a sensação de que a Simone distorceu muitos argumentos da psicanálise só para defender seus pontos de vista, ela simplificou demais e por isso foi rasa e infiel aos conceitos psicanalíticos, a Tati (LINDA) falou um pouco sobre isso no vídeo que ela fez, quando ela fizer o texto coloco o link aqui.
O vídeo da Tati, que é psicanalista, portanto tem mais gabarito que eu pra falar:



Ponto de vista do materialismo histórico
Essa parte foi a mais complicada pra mim, me parece que ela quis dizer muita coisa, mas não disse nada. Eu não tenho muito conhecimento de materialismo histórico, não sei muita coisa sobre marxismo, socialismo e etc., mas me pareceu que ela repetiu os conceitos já mostrados para reafirmar suas ideias em cima de conceitos sócio-culturais, por exemplo:
"Na história humana, o domínio do mundo não se define nunca pelo corpo nu: a mão com seu polegar preensivo já se supera em direção ao instrumento que lhe multiplica o poder; desde os mais antigos documentos de pré-história o homem surge sempre armado. No tempo em que se tratava de brandir pesadas maças, de enfrentar animais selvagens, a fraqueza física da mulher constituía uma inferioridade flagrante; basta que o instrumento exija uma força ligeiramente superior à de que dispõe a mulher para que ela se apresente como radicalmente impotente. Mas pode acontecer, ao contrário, que a técnica anule a diferença muscular que separa o homem da mulher: a abundância só cria superioridade na perspectiva de uma necessidade; não é melhor ter demais do que não ter bastante."
E também:
"Se o mínimo necessário não é superior às capacidades da mulher, ela torna-se igual ao homem no trabalho. Efetivamente, pode-se determinar hoje imensos desenvolvimentos de energia simplesmente apertando um botão. Quanto às servidões da maternidade, elas assumem, segundo os costumes, uma importância muito variável: são esmagadoras se se impõem à mulher muitas procriações e se ela deve alimentar e cuidar dos filhos sem mais ajuda; se procria livremente, se a sociedade a auxilia durante a gravidez e se se ocupa da criança, os encargos maternais são leves e podem ser facilmente compensados no campo do trabalho."

Ela meio que discorre sobre o papel da mulher na sociedade de Engels e Marx, mas de forma superficial, ela mostra como nessa sociedade o sexo pode desestabilizar, como o desejo pode criar laçoes mais fortes que os laços com o estado, me lembrei muito de 1984 de George Orwell, que mostra esse medo e o poder que uma relação homem e mulher tem de influenciar a hierarquia social desse tipo de modelo.
Acho que ela ressalta nessa parte o valor da mulher na família, nesse tipo de sociedade e como parte de um casal, quando teoricamente a relação se torna mais importante que o resto.

No sei se foi exatamente isso que ela quis dizer, vou tentar reler essa parte depois de dar uma pesquisada nesses modelos econômicos ai volto aqui e atualizo o post! ;)


O post ficou gigante, mas é que esse livro é incomodo, faz pensar e tem muita coisa que precisa de um tempo pra digerir.

Até a proxima!
;)

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